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A lesão que quase me fez desistir (e porque não vou desistir)

Falta menos de um mês para a minha meia maratona e chegou a notícia que qualquer corredor teme: uma lesão no tendão de Aquiles.

Quem já treinou para uma prova conhece esta sensação. Não é só dor física. É a notícia a cair em cima de semanas de treino, de madrugadas a acordar mais cedo, de quilómetros somados um a um. E, de repente, parece que tudo isso está ameaçado por um tendão inflamado.

A primeira reação é sempre a mesma: vontade de deitar tudo a perder. Mandar uma mensagem a cancelar a inscrição, arranjar uma desculpa, dizer que “este ano não dá”. É mais fácil desistir agora do que arriscar chegar ao dia da prova e não conseguir terminar, não é verdade?

Só que depois surge outro pensamento, mais teimoso: não tentar é pior do que tentar e falhar.

E foi esse pensamento que me fez lembrar de onde vim.

Lembras-te do primeiro 1km?

Antes de sonhar com 21km, houve um dia em que 1km parecia impossível. O peito a arder, a vontade de parar em cada esquina, aquela sensação de “não fui feito para isto”.

Depois veio o 3km. Difícil, mas já um pouco menos. Depois o 5km, que trouxe um orgulho diferente. O 8km, onde começámos a sentir-nos verdadeiros corredores. E, finalmente, aquele 10km tão desejado, que um dia pareceu longe demais para ser real.

Cada um destes números não foi só uma distância. Foi uma versão nossa que teve de vencer a vontade de parar, treino após treino, até lá chegar.

E agora, por causa de uma lesão, tudo isto parece parado. É frustrante treinar sem poder treinar. É frustrante ver o calendário a avançar e o corpo a não colaborar. É frustrante, sobretudo, sentir que o compromisso assumido connosco próprios se tornou um peso.

Correr não é só sobre correr

Se há uma coisa que esta lesão me ensinou é que o corredor não desiste só porque a perna está perfeita. Também não desiste quando ela não está.

Por isso decidi: vou. Se não conseguir correr os 21km inteiros, vou a andar. No ritmo que o tendão permitir, respeitando o corpo, mas respeitando também o compromisso que fiz comigo mesmo. Vou cruzar a linha de chegada, levar a medalha, comer a banana do costume e voltar para casa.

E aí sim, com a prova feita, vou focar-me no que realmente importa agora: fortalecer o tendão de Aquiles, perceber o que faltou no meu treino ou na minha recuperação, e preparar-me bem para o próximo desafio.

Para quem está a passar por isto agora

Se és corredor e estás a lidar com alguma lesão neste momento, sabes exatamente do que estou a falar. A dor não é só no tendão, no joelho ou na barriga da perna. É a dúvida sobre se vale a pena continuar, se és “corredor a sério” se tiveres de andar em vez de correr, se desistir desta prova significa desistir de correr para sempre.

Não significa.

Lesionar-se faz parte do caminho de quem treina a sério. O que separa quem continua a correr, mesmo anos depois, de quem desiste de vez, não é nunca se magoar. É o que decidimos fazer quando isso acontece.

Por isso, se também estás naquele momento de “será que desisto”, só te posso dizer o que estou a fazer: vou até à partida. Vou ao ritmo que der. E vou cruzar a meta — porque quem já venceu o primeiro 1km sabe que também consegue vencer isto.

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